quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Luz

Foi surpreendido por um pequeno feixe de luz que invadiu o quarto logo pela manhã.

Beirando os seus 70 anos, a saúde já não permitia a sua independência. Vivia sob os cuidados da filha mais nova. Um anjo, a Joana.

Levantou-se da cama e caminhou até a janela. Espiou pelo pedacinho que estava aberto. A luz vinha de um sol completamente perfeito, aquele fraquinho da manhã que não te arde os olhos. As folhas das árvores estavam assim, alaranjadas. Fotograficamente alaranjadas. Passou um garoto de bicicleta, com os olhos fechados, enquanto o vento batia no seu rosto.
Pensou: "Têm coisas que a vida tenta nos mostrar, e não queremos ver.
Deve ter sido a Joana que deixou essa porcaria aberta, aquela inútil."
Fechou a janela e voltou a dormir. Nunca mais viu a luz.

(Postado originalmente no Ódio no Post-it)

Um comentário:

BrunoGrilo disse...

MUITO foda... e pensar q a gente faz isso a vida toda, desprezar as coisas simples e belas e só percebe o tempo perdido à beira da morte... e em alguns casos, nem assim chega a perceber