quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Luz

Foi surpreendido por um pequeno feixe de luz que invadiu o quarto logo pela manhã.

Beirando os seus 70 anos, a saúde já não permitia a sua independência. Vivia sob os cuidados da filha mais nova. Um anjo, a Joana.

Levantou-se da cama e caminhou até a janela. Espiou pelo pedacinho que estava aberto. A luz vinha de um sol completamente perfeito, aquele fraquinho da manhã que não te arde os olhos. As folhas das árvores estavam assim, alaranjadas. Fotograficamente alaranjadas. Passou um garoto de bicicleta, com os olhos fechados, enquanto o vento batia no seu rosto.
Pensou: "Têm coisas que a vida tenta nos mostrar, e não queremos ver.
Deve ter sido a Joana que deixou essa porcaria aberta, aquela inútil."
Fechou a janela e voltou a dormir. Nunca mais viu a luz.

(Postado originalmente no Ódio no Post-it)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Surrealismo

O olho pulou para fora da cavidade e rolou pelo chão. A mão esverdeada de dedos magros apanhou o globo de vidro negro de volta. O barulho do encaixe é quase eletrônico, mas clássico. Uma gota de líquido branco escorreu do lacrimal até a ponta do queixo pontudo. Limpou o canto da boca com a língua bifurcada, rapidamente. Três aranhas passeavam pelo seu crânio, coberto por alguns fios de cabelo prateado. Um pequeno verme se debatia tentando sair de um furo úmido de sangue localizado em sua nuca.
Suspenso por um fio de prata, o pêndulo balançava lentamente. Pra direita, pra esquerda, pra direita...
A beleza em sua real simplicidade. Eu poderia pintar um quadro.