quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Som do Sol

Do alto daquele edifício as luzes da cidade e estrelas se espelhavam. Não havia diferença entre os pequenos pontos que brilhavam. Alguns sob os seus pés, outros sobre seus olhos. Ela quer voar, mas onde é o céu? E se ela tentar pular para o alto, sabe que vai cair. Mas é só pensar, que os pontos trocam de lugar. Antes que as luzes se apaguem ela estará perto de ouvir o som do sol. A simetria confunde enquanto os pés descalços pairam no ar. Lá embaixo o carro da polícia ultrapassa o semáforo, um cego sente o cheiro áspero do concreto, um cachorro treme de frio e uma senhora atravessa a rua engolindo um choro que ela não pode ouvir. Lá em cima, explosões estelares, um vácuo que grita e o som do sol, um zumbido em alta frequência que ela não pode ouvir. São apenas pontos brilhantes. Pontos de energia eletromagnética. Ou corpos celestes luminosos. E se ela tentar pular para o alto, sabe que vai cair. Mas é só pensar, que os pontos trocam de lugar. Antes que as luzes se apaguem ela estará perto de ouvir o som do sol. E se por acaso ela pudesse ouví-los. Mulher, que você esteja em casa antes que a lágrima escape e o seu grito te ensurdeça. Homem, que você caminhe mais vezes entre damas da noite do que entre este cimento que cerca as pessoas tristes deste lugar. Se por acaso ela pudesse ouví-los.
Do outro lado da cidade um menino olha para o alto e imagina qual é o som que faz lá em cima. Um zumbido em alta frequencia, um ruído que ele não pode ouvir.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

#23

A letter to the last person you kissed

Daqui a pouco fica tarde e eu vou ter que ir tentar dormir rápido porque amanhã eu tenho que fingir que sou responsável e entrar nessa cidade cheia de gente e de barulho e eu vou ficar louca até o fim do dia assim sem vírgulas. E nesses dias que toda hora é hora do rush e que tudo é pra ontem, esses dias sem vírgula nenhuma que eu lembro da sua barba meio clarinha por um minuto em alguma hora perdida, tipo 17:22h. Porque vírgula é pausa, e ficar perto da sua barba loirinha me dá uma pausa de ver o mundo explodindo e pegando fogo lá fora. E mesmo que as pessoas na rua não me interessem, eu me arrumo, porque vai que alguém lembra de mim pelo menos por um minuto em alguma hora perdida, tipo 15:34h. Eu prefiro estar bonita se tem alguém lembrando de mim. Mesmo ele ainda não sabendo o quanto eu fico bem de vermelho, eu uso vermelho. Perguntaram qual piadinha que eu tava lendo na internet mas eu só estava sorrindo sozinha de lembrar o tanto que ele fica bonito de óculos. A gente nem se telefona, nem diz que está com saudades, nem nada. Não precisa. Não preciso de certezas porque simplesmente é. Por expor demais certas coisas, passei a optar pelo silêncio. Mas não tenho mais receio que ele pense que sou um pouco louca ou exagerada. Fui fácil e se errei, não sei. Mas não vejo sentido em fazer algum tipo de joguinho adolescente do tipo "tem que esnobar senão o cara desencana", com ele eu sou tão eu mesma que nem percebo. É daquelas pessoas inesperadas, que surgem do nada, que parece que você conhece há anos. Cria-se uma confiança mútua, espontânea. Temos nossas vidas, amigos, trabalho, vontades, lembranças. E nos temos, sem cobrança, simplesmente é. Tanta gente vem me pedir conselhos e eu nunca tive paciência pra reclamações sobre a distância porque sempre achei que era frescura. Mas não é, não. É chato não poder deitar meu rosto no seu peito agora. Mesmo assim eu queria que você soubesse que quando você veio, trouxe junto pra mim uma leveza e um pouquinho de agonia que eu estava precisando, e é disso que falam quando me dizem que eu estou diferente. E eu gosto da leveza, da agonia, de mim com você e de você comigo.