Como disse Vilém Flusser, todo e qualquer tipo de interação e atividade que o ser humano pratica é unicamente uma forma de se distrair enquanto vive, já que está condenado à morte, inevitavelmente. E esperar por isso sozinho seria um pouco desesperador. E é por isso que existem as ruas, os carros, os shoppings e as bebidas. Aliás, é pra isso que você está trabalhando ou estudando agora, pra sobreviver de forma medíocre e satisfazer alguns desejos infundados. Somente uma breve distração.
Mas é um final difícil de aceitar, não?
“Quer dizer que eu vou deixar de existir realmente?”
Sim, vai. E todas as outras coisas do mundo vão continuar existindo, naturalmente. É exatamente deste fim cruel que surge a necessidade desesperada de encontrar uma desculpa ou um motivo para acreditar que não pode ser assim, tão injusto, e que “eu viverei para sempre junto daqueles que amo, e quem é você pra me dizer que não?”.
Pronto, está feita a merda. A partir do momento que alguém teve essa ideia, o homem começa a achar que é imortal, mesmo depois de morrer. (?)
“O homem bom cuida bem de si mesmo, mas o cruel prejudica o seu corpo.” (Pv 11:17)
Quem segue isso entra em contradição imensa, já que o corpo hoje é inclusive fonte de renda e isso é visto com naturalidade, ou nem é visto. No meio de tudo, condena-se a tatuagem e o sexo. Afinal, o que é prejudicar o meu corpo? Ficar picando uma agulha na pele por livre e espontânea vontade é blasfêmia. Porém existem sacrifícios religiosos e promessas, como o jejum ou longas caminhadas debaixo do sol sem se alimentar. Nesses casos, é motivo de orgulho, um exemplo de força e dedicação. Pessoas que cumprem esse tipo de promessa, costumam criticar a auto-flagelação de outros fanáticos, que chicoteiam a si próprios, por exemplo.
Acontece que um não está tão distante do outro. É como criticar o tight-lacing por sua agressividade ao corpo, mas uma lipoaspiração de leve pode. A diferença é que quem faz o tight-lacing ou tatuagem, vai para o inferno.
A crença na imortalidade gerou um hedonismo cotidiano, come-se, bebe-se e fuma-se demais. Mas essa agressão diária ao corpo não é mais percebida como errada.
O seu corpo está tão ferrado e impuro quanto o meu.
E ninguém vai precisar disso quando morrer.
(Nem se você tiver uma alma)
Colaboração pra Igreja Ateísta
Sem pedras
4 horas atrás

2 corvos bicando seu olho:
Deus nada mais é que o exemplo de que as pessoas possam ser imortais depois de morrer.
Perfeito. Adoro seus textos, bonita.
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