quarta-feira, 14 de julho de 2010

Fazendeira

Ela fazia aquela comida cinzenta e aproveitava pra dizer o quanto eu era nojento mastigando, e como ela não aguentava mais ouvir a minha respiração ali. E saía, com aquele andar torto. A vida toda eu fugi de todo o barulho que eu podia. E mesmo vivendo no meio do mato como eu sempre quis, os gritos dela não cessavam. Não quis me dar um filho, disse que não queria outro de mim por perto. Uma vez, levei um filhote de cachorro pra fazenda, pra ver se as coisas melhoravam. Ela afogou o bichinho com gosto. Ela adorava dizer que um dia ia me colocar dentro de um saco junto com o lixo, porque era isso que eu era. Jogou todos os meus discos fora. Lembro daquelas mãos brancas, gordas e engorduradas colocando tudo em um saco preto, me perguntando por que eu não ia pro inferno junto com eles.
Um dia, perto do fim do ano, a vi matando uma galinha. Aquele chinelo arrebentado, o avental sujo e o cabelo ruivo preso em um lenço de bolinhas, praticamente uma cena cinematográfica. Imaginei como seria quebrar aquele pescoço do mesmo jeito que ela fez. Aprendi com a própria, e não teve erro. Se gostava tanto de sacos de lixo, deve estar feliz agora.
Jantei galinha ensopada, sozinho. Finalmente.

2 corvos bicando seu olho:

ivan disse...

Adoro finais de uma frase. São os melhores. Em texticulos claro.

_monstro disse...

Nunca pensei q eu fosse sentir tanta raiva por uma mulher em tão poucas linhas. Foi tarde a vagabunda.