quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Luz

Foi surpreendido por um pequeno feixe de luz que invadiu o quarto logo pela manhã.

Beirando os seus 70 anos, a saúde já não permitia a sua independência. Vivia sob os cuidados da filha mais nova. Um anjo, a Joana.

Levantou-se da cama e caminhou até a janela. Espiou pelo pedacinho que estava aberto. A luz vinha de um sol completamente perfeito, aquele fraquinho da manhã que não te arde os olhos. As folhas das árvores estavam assim, alaranjadas. Fotograficamente alaranjadas. Passou um garoto de bicicleta, com os olhos fechados, enquanto o vento batia no seu rosto.
Pensou: "Têm coisas que a vida tenta nos mostrar, e não queremos ver.
Deve ter sido a Joana que deixou essa porcaria aberta, aquela inútil."
Fechou a janela e voltou a dormir. Nunca mais viu a luz.

(Postado originalmente no Ódio no Post-it)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Surrealismo

O olho pulou para fora da cavidade e rolou pelo chão. A mão esverdeada de dedos magros apanhou o globo de vidro negro de volta. O barulho do encaixe é quase eletrônico, mas clássico. Uma gota de líquido branco escorreu do lacrimal até a ponta do queixo pontudo. Limpou o canto da boca com a língua bifurcada, rapidamente. Três aranhas passeavam pelo seu crânio, coberto por alguns fios de cabelo prateado. Um pequeno verme se debatia tentando sair de um furo úmido de sangue localizado em sua nuca.
Suspenso por um fio de prata, o pêndulo balançava lentamente. Pra direita, pra esquerda, pra direita...
A beleza em sua real simplicidade. Eu poderia pintar um quadro.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Som do Sol

Do alto daquele edifício as luzes da cidade e estrelas se espelhavam. Não havia diferença entre os pequenos pontos que brilhavam. Alguns sob os seus pés, outros sobre seus olhos. Ela quer voar, mas onde é o céu? E se ela tentar pular para o alto, sabe que vai cair. Mas é só pensar, que os pontos trocam de lugar. Antes que as luzes se apaguem ela estará perto de ouvir o som do sol. A simetria confunde enquanto os pés descalços pairam no ar. Lá embaixo o carro da polícia ultrapassa o semáforo, um cego sente o cheiro áspero do concreto, um cachorro treme de frio e uma senhora atravessa a rua engolindo um choro que ela não pode ouvir. Lá em cima, explosões estelares, um vácuo que grita e o som do sol, um zumbido em alta frequência que ela não pode ouvir. São apenas pontos brilhantes. Pontos de energia eletromagnética. Ou corpos celestes luminosos. E se ela tentar pular para o alto, sabe que vai cair. Mas é só pensar, que os pontos trocam de lugar. Antes que as luzes se apaguem ela estará perto de ouvir o som do sol. E se por acaso ela pudesse ouví-los. Mulher, que você esteja em casa antes que a lágrima escape e o seu grito te ensurdeça. Homem, que você caminhe mais vezes entre damas da noite do que entre este cimento que cerca as pessoas tristes deste lugar. Se por acaso ela pudesse ouví-los.
Do outro lado da cidade um menino olha para o alto e imagina qual é o som que faz lá em cima. Um zumbido em alta frequencia, um ruído que ele não pode ouvir.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

#23

A letter to the last person you kissed

Daqui a pouco fica tarde e eu vou ter que ir tentar dormir rápido porque amanhã eu tenho que fingir que sou responsável e entrar nessa cidade cheia de gente e de barulho e eu vou ficar louca até o fim do dia assim sem vírgulas. E nesses dias que toda hora é hora do rush e que tudo é pra ontem, esses dias sem vírgula nenhuma que eu lembro da sua barba meio clarinha por um minuto em alguma hora perdida, tipo 17:22h. Porque vírgula é pausa, e ficar perto da sua barba loirinha me dá uma pausa de ver o mundo explodindo e pegando fogo lá fora. E mesmo que as pessoas na rua não me interessem, eu me arrumo, porque vai que alguém lembra de mim pelo menos por um minuto em alguma hora perdida, tipo 15:34h. Eu prefiro estar bonita se tem alguém lembrando de mim. Mesmo ele ainda não sabendo o quanto eu fico bem de vermelho, eu uso vermelho. Perguntaram qual piadinha que eu tava lendo na internet mas eu só estava sorrindo sozinha de lembrar o tanto que ele fica bonito de óculos. A gente nem se telefona, nem diz que está com saudades, nem nada. Não precisa. Não preciso de certezas porque simplesmente é. Por expor demais certas coisas, passei a optar pelo silêncio. Mas não tenho mais receio que ele pense que sou um pouco louca ou exagerada. Fui fácil e se errei, não sei. Mas não vejo sentido em fazer algum tipo de joguinho adolescente do tipo "tem que esnobar senão o cara desencana", com ele eu sou tão eu mesma que nem percebo. É daquelas pessoas inesperadas, que surgem do nada, que parece que você conhece há anos. Cria-se uma confiança mútua, espontânea. Temos nossas vidas, amigos, trabalho, vontades, lembranças. E nos temos, sem cobrança, simplesmente é. Tanta gente vem me pedir conselhos e eu nunca tive paciência pra reclamações sobre a distância porque sempre achei que era frescura. Mas não é, não. É chato não poder deitar meu rosto no seu peito agora. Mesmo assim eu queria que você soubesse que quando você veio, trouxe junto pra mim uma leveza e um pouquinho de agonia que eu estava precisando, e é disso que falam quando me dizem que eu estou diferente. E eu gosto da leveza, da agonia, de mim com você e de você comigo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

#27

A letter to the friendliest person you knew for only one day



Ele me disse o seu nome, e era Bob. Eu já sabia. Eu te amo, Bob. Desde que eu apareci sob as luzes que você me olha com esses olhos tortos. E eu fiz o meu show só pra você, meu amor. Bob, seu eterno fracassado. Como você veio parar em um lugar como esse? E olha só você, de gravata tentando me enganar com esse copo cheio de uísque, não vê que o gelo já derreteu? Eu sussurrei o meu nome mas você não escutou. Uma pena, pois me reconheceria. Você me chamou, Bob, eu ouvi de longe. Por que você não pede mais uma dose, meu amor? Bob acendeu um cigarro e me contou da saudade que tinha da família, mas disse que os negócios iam muito bem. Depois ele chorou. Pobre Bob, toma meu ombro. Toma mais uma dose. "Vamos para a minha casa?", ele pediu. Claro, meu bem, me leva até para o nono círculo do inferno que eu vou com você. E ele tirou o meu vestido de veludo e beijou a minha carne com delicadeza. Eu te amo tanto que você não pode mais viver, porque eu preciso de você, Bob. E eu cravei as minhas garras nos seus olhos mal feitos. Minhas asas finalmente se abriram e os seus lençóis arderam em fogo e sangue. Eu beijei os seus olhos perfurados. Você me fez viver novamente, Bob. Eu te amo. Tirei os meus sapatos de solas vermelhas e caminhei pela casa na ponta dos pés. Virei todos os crucifixos de cabeça para baixo e saí pela porta.
Boa noite, meu amor, você me chamou e aqui eu estou. Eu sou a Estrela da Manhã.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

#6

A letter to a stranger

Imagino onde esteja, viajante, e sei que a vista é bela. Sabe que eu subi todo este penhasco sozinho? Sim, queria ver um pedaço do mundo de cima. Não é magnífico? Meu amigo, se eu pudesse ser Deus agora, eu explodiria tudo isso aqui. Não sei quanto tempo se passou até você encontrar estas palavras, mas eu estou agora na beira deste abismo e aqui deixarei o que estou escrevendo sob uma pedra fria. Seguro apenas uma caneta, esses papéis que estão em suas mãos e uma garrafa de conhaque, que talvez você veja por aí. A única coisa que eu sei fazer é escrever e inventar histórias, porque da minha vida, nada pode ser dito. Eu não lembro o meu sobrenome e nem sei onde nasci. Mas sei que eu os abandonei. Eles, não sei quem são, mas sei que são, e que precisavam de mim. E eu lamento muito. Cara, agora eu vou voar, vou pular daqui e vou voar como um grão de areia. Foi isso que eu me tornei. Mas quis te escrever para te dizer, não abandone os seus, por nada neste mundo. Eu nunca imaginei o quanto eu precisaria deles, os meus, mesmo não sabendo mais quem são. Que me perdoem.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

#4

A letter to your sibling (or closest relative)

"How many roads must a man walk down, before you call him a man?"



Um dia eu estava filmando você tocando violão e cantando. Acho que era Blowin' in the wind, e aí eu chorei. Não só de orgulho, mas foi bonito porque eu vi o quanto você realmente ama isso. Eu lembrei de quando você começou a tocar guitarra há quase 10 anos atrás e nunca mais desistiu. Daí eu enxuguei os olhos e tentei disfarçar, fiquei com vergonha, mas te falaram que eu chorei por sua causa e você disse que nunca ia me deixar na mão. Às vezes você não é tão delicado quando eu te falo dos meus problemas sentimentais, mas sei que é porque se preocupa, e pra mim soa como um bom conselho. Você é tão leve com as pessoas (até com as que não merecem), apesar dos combos incríveis de palavrões e xingamentos inventados na hora. Acho que nunca vi alguém tão humilde. Você disse que quer ensinar história para tentar deixar esse mundo cinza um pouco melhor. Não existe uma pessoa que não goste de você. Eu não sou de violência, mas se alguém te fizer mal eu sou capaz de socar a cabeça da pessoa no chão até virar líquido. Eu nem sei quanto tempo vou durar mas imagino nós dois velhos, ouvindo rock n roll, bebendo alguma coisa barata e jogando baralho. Nada muito diferente do que é hoje, e assim espero. Só quero ir antes de você, pra não ter que perder a melhor parte de mim.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

#1

A letter to your best friend

"If you fall, I will catch you, when you're lost, i'll be there soon."

Lembro de te ver passando com o seu cabelo sempre comprido, e me olhando com curiosidade. A mesma curiosidade que eu tinha sobre você. Quem é essa menina que gosta das mesmas coisas que eu? No fim, somos mais parecidas do que pensávamos, ou do que éramos. Não sei se eu seria tão eu se não fosse você. Eu já te vi correndo atrás da morte. Depois te vi sendo mãe. Gosto dos nossos vícios e dos nossos medos parecidos, podemos debater sobre eles com confiança. Acho que se as pessoas soubessem metade das coisas que você sabe sobre mim, pensariam que eu sou louca, mas você me acolhe. Você tem defeitos, sim. Não come carne (não sempre) e não sabe jogar truco. Mas tem bom gosto pra outras coisas e virou adulta cedo. Te digo que das raras vezes em que eu me sinto em casa, você está lá entre as garrafas cantando enquanto o meu irmão toca violão. Amiga, eu odeio estar longe, queria estar por perto sempre que você me chama de madrugada dizendo que precisa de ajuda, e também queria poder te chamar e ganhar um abraço quando eu estou chorando porque não encontrei uma resposta para o sentido da vida. Sei que às vezes falho contigo, mas você sempre apoiou as minhas loucuras, porque sabe que eu faço essas coisas porque tento ser feliz. Não é qualquer pessoa que me entende, mas você me sacou. Você é rara. Então se um dia você sumir, eu vou atrás de você até no inferno, porque eu te amo.

30 Days Letter Project

Eu vou. Só não garanto escrever todas, muito menos uma por dia.

Day 1 — Your Best Friend
Day 2 — Your Crush
Day 3 — Your parents
Day 4 — Your sibling (or closest relative)
Day 5 — Your dreams
Day 6 — A stranger
Day 7 — Your Ex-boyfriend/girlfriend/love/crush
Day 8 — Your favorite internet friend
Day 9 — Someone you wish you could meet
Day 10 — Someone you don’t talk to as much as you’d like to
Day 11 — A Deceased person you wish you could talk to
Day 12 — The person you hate most/caused you a lot of pain
Day 13 — Someone you wish could forgive you
Day 14 — Someone you’ve drifted away from
Day 15 — The person you miss the most
Day 16 — Someone that’s not in your state/country
Day 17 — Someone from your childhood
Day 18 — The person that you wish you could be
Day 19 — Someone that pesters your mind—good or bad
Day 20 — The one that broke your heart the hardest
Day 21 — Someone you judged by their first impression
Day 22 — Someone you want to give a second chance to
Day 23 — The last person you kissed
Day 24 — The person that gave you your favorite memory
Day 25 — The person you know that is going through the worst of times
Day 26 — The last person you made a pinky promise to
Day 27 — The friendliest person you knew for only one day
Day 28 — Someone that changed your life
Day 29 — The person that you want tell everything to, but too afraid to
Day 30 — Your reflection in the mirror.

Silêncio

Ele tinha perdido a lucidez. Veio me dizer com um sorriso no rosto que o sol não apareceria mais. O começo do fim do mundo enlouqueceu a população, as pessoas corriam pelas ruas escuras, matavam uns aos outros e gargalhavam. Os homens do exército atiravam sem hesitar. Não demorou muito e houve uma explosão que anulou todo e qualquer som por alguns segundos. As estrelas brilhavam enquanto a Terra ardia em radiação e a raça humana estava quase extinta. Em um telão no alto da cidade, mostrava-se aos poucos que restaram um infográfico do estado do sistema solar, completamente desalinhado. Faltavam poucas horas apenas, que demoraram a passar, mas não houve chance alguma de não serem todos engolidos pelo chão. Não foi o fim do mundo, o planeta continuava ali, silencioso e intacto. As estrelas brilhavam cada vez mais.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sobre o Corpo Impuro

Como disse Vilém Flusser, todo e qualquer tipo de interação e atividade que o ser humano pratica é unicamente uma forma de se distrair enquanto vive, já que está condenado à morte, inevitavelmente. E esperar por isso sozinho seria um pouco desesperador. E é por isso que existem as ruas, os carros, os shoppings e as bebidas. Aliás, é pra isso que você está trabalhando ou estudando agora, pra sobreviver de forma medíocre e satisfazer alguns desejos infundados. Somente uma breve distração.

Mas é um final difícil de aceitar, não?
“Quer dizer que eu vou deixar de existir realmente?”
Sim, vai. E todas as outras coisas do mundo vão continuar existindo, naturalmente. É exatamente deste fim cruel que surge a necessidade desesperada de encontrar uma desculpa ou um motivo para acreditar que não pode ser assim, tão injusto, e que “eu viverei para sempre junto daqueles que amo, e quem é você pra me dizer que não?”.
Pronto, está feita a merda. A partir do momento que alguém teve essa ideia, o homem começa a achar que é imortal, mesmo depois de morrer. (?)

“O homem bom cuida bem de si mesmo, mas o cruel prejudica o seu corpo.” (Pv 11:17)
Quem segue isso entra em contradição imensa, já que o corpo hoje é inclusive fonte de renda e isso é visto com naturalidade, ou nem é visto. No meio de tudo, condena-se a tatuagem e o sexo. Afinal, o que é prejudicar o meu corpo? Ficar picando uma agulha na pele por livre e espontânea vontade é blasfêmia. Porém existem sacrifícios religiosos e promessas, como o jejum ou longas caminhadas debaixo do sol sem se alimentar. Nesses casos, é motivo de orgulho, um exemplo de força e dedicação. Pessoas que cumprem esse tipo de promessa, costumam criticar a auto-flagelação de outros fanáticos, que chicoteiam a si próprios, por exemplo.

Acontece que um não está tão distante do outro. É como criticar o tight-lacing por sua agressividade ao corpo, mas uma lipoaspiração de leve pode. A diferença é que quem faz o tight-lacing ou tatuagem, vai para o inferno.

A crença na imortalidade gerou um hedonismo cotidiano, come-se, bebe-se e fuma-se demais. Mas essa agressão diária ao corpo não é mais percebida como errada.
O seu corpo está tão ferrado e impuro quanto o meu.
E ninguém vai precisar disso quando morrer.
(Nem se você tiver uma alma)

Colaboração pra Igreja Ateísta

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Fazendeira

Ela fazia aquela comida cinzenta e aproveitava pra dizer o quanto eu era nojento mastigando, e como ela não aguentava mais ouvir a minha respiração ali. E saía, com aquele andar torto. A vida toda eu fugi de todo o barulho que eu podia. E mesmo vivendo no meio do mato como eu sempre quis, os gritos dela não cessavam. Não quis me dar um filho, disse que não queria outro de mim por perto. Uma vez, levei um filhote de cachorro pra fazenda, pra ver se as coisas melhoravam. Ela afogou o bichinho com gosto. Ela adorava dizer que um dia ia me colocar dentro de um saco junto com o lixo, porque era isso que eu era. Jogou todos os meus discos fora. Lembro daquelas mãos brancas, gordas e engorduradas colocando tudo em um saco preto, me perguntando por que eu não ia pro inferno junto com eles.
Um dia, perto do fim do ano, a vi matando uma galinha. Aquele chinelo arrebentado, o avental sujo e o cabelo ruivo preso em um lenço de bolinhas, praticamente uma cena cinematográfica. Imaginei como seria quebrar aquele pescoço do mesmo jeito que ela fez. Aprendi com a própria, e não teve erro. Se gostava tanto de sacos de lixo, deve estar feliz agora.
Jantei galinha ensopada, sozinho. Finalmente.