sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Abismo

Talvez se amanhã eu acordasse e não me olhasse no espelho eu teria mais coragem. Porque eu não sou só olheiras e um pulso magro. Mas o espelho me denuncia, tira a minha roupa, e dá pra ver um abismo ali dentro. Talvez se e as certezas e tudo, tudo estivesse escrito em alguns papéis, talvez eu só precisasse colocar fogo, dar as costas e sair andando. Então eu tento colocar fogo dentro de mim através de uma fumaça cinza. Talvez se a cidade não parecesse um filme antigo, mudo e preto e branco e cinza, eu poderia respirar. O abismo é cinza como o concreto e o fim do abismo é cimento, frio e áspero. O cimento não pega fogo. Eu não achei onde queimar. Talvez se eu achasse esses papéis eu queimaria e daria as costas. Ontem eu dei as costas para o espelho, talvez amanhã eu vá até o cimento áspero, talvez eu encontre uma flor que conseguiu nascer por ali, mesmo que esteja seca. Ela conseguiu furar o cimento.

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