terça-feira, 14 de julho de 2009

Pressa

Eu enlouqueci hoje assim que acordei. Acordar é natural, mas são situações naturais que enlouquecem quando elas saem do normal. E quando eu acordei eu vi tudo vermelho, achei que tinha sangue nos olhos, mas ele estava nas paredes. Eles querem me internar, e quem nunca enloqueceu? São poucos os que percebem, só isso. Olhei o quarto mais atentamente e achei engraçado. Tão trivial, tão visto todos os dias. Hoje, com uma bela mancha de sangue na parede salmão. Vejo meninas da minha idade que não enlouqueceram ainda. Me sinto com o triplo da minha idade apesar dos ursinhos no quarto , e não sei o porquê.
Levei a mão aos olhos e senti o enrugado. Na parede, o meu único retrato de quando era jovem. Preto e branco.
"Pra que tanta pressa com oitenta e poucos anos?"
Me internaram no caixão.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Porque eu gosto de gatos

Eu fico imaginando o quanto um gato odeia ser fofinho. Você sabe o que se passa naquele orgãozinho petrificado do bichano, conhecido como coração? Pra não dizer nada: Um mau-humor peculiar, o egocentrismo que mal cabe no corpinho peludo e o mais sarcástico descaso.
Para ele, você é algo grande e bobo, apenas isso. Ele não gosta de você, nem da sua família, nem das suas visitas. Ele acha que tem a aparência de um leão, empina o focinho e desfila. E então, domingo à tarde, tudo que ele quer é deitar com a barriga pra cima depois de comer o banquete que você preparou com tanto carinho (depois de pensar "rango safado, comeria melhor na rua", obviamente), você chega e vê aquele felino muito do bonitinho e faz a Felícia: corre, aperta e enche o infeliz de bitoca babada. Juro que consigo ouvir, "Me deixa, caralho!". Ingratos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sapatos e Martini

O barulho foi tão intenso que pôde sentir na pele. Foi ensurdecedor. Minutos antes estava sentada, no boteco de sempre. Pediu o Martini de sempre. Mas não estava no lugar onde costuma sentar. Lá, do outro canto, a desajeitada com o Martini observava aquela que ocupava o seu lugar. Os sapatos eram bonitos, mas a saia estava um pouco curta demais. Desviou o olhar. O cigarro parecia flutuar e acabou mais rápido do que de costume. Essas porcarias não servem pra nada, mesmo. Sempre estão por perto, mas morrem rápido. Anseia por acendê-los e anseia por apagá-los. Acendeu outro (esses isqueiros não servem pra nada!), e quando voltou a olhar para aqueles sapatos brilhantes, viu que estavam caminhando. Para fora, aquela louca estava indo para fora. Ótimo, afinal é o meu lugar, de onde eu não deveria ter saído. E então ela se levantou e sentou no seu lugar. Sua tão confortável cadeira do boteco em frente à Avenida. Ah, a Avenida. Cruel, sem aviso, assassina... Assassina.
O barulho foi ensurdecedor, ela sentiu tremer a pele. Colocou o Martini em cima do balcão e foi para fora.
Os sapatos continuavam refletindo a luz, desta vez distantes. Uns quinze metros? Couro preto envernizado é tão bonito.
Eles não se moviam mais.

Foi embora e deixou o Martini no balcão, lembrou depois, na cama. Que desperdício.