terça-feira, 20 de outubro de 2009

Bicho

Ela queria, às vezes, ter uma alergia por causa do sabonete para parecer mais sensível e delicada. Mas a força grita nela. Parece que tem um bicho ali dentro, que avança, arranha, morde. Ela morde tudo que a enfrenta. Ela toma quantos remédios ela quer, sempre acorda no dia seguinte. Ela come tudo o que quer, e não engorda. Ela fuma todos os cigarros que consegue e tem todo o fôlego que precisa. Se não tiver, ela arranja. E quando ela sente que deveria estar trancada no banheiro deixando as lágrimas escorrerem com água do chuveiro, ela dança pela casa, porque não está. Ela beija o espelho porque a imagem que ele reflete é leve, apesar do peso do mundo que ela carrega nas costas. Ela puxa pra si todas as dores ao seu redor, mas não sente as próprias. Tem quem sinta pena, tem quem não entenda. Ela não precisa entender porque ela não quer. O bicho dentro dela devora tudo que entra ali. E ela está aqui, intacta, leve, nova. Você nem consegue adivinhar a sua idade nem o que ela faz pra não ter um fio de cabelo fora do lugar. Ela te intimida e você não entende porque sente medo. É o bicho dentro dela, rosnando pra você, rindo da sua tragédia. Ela faz tudo errado mas quer morrer de velhice. Ela nunca plantou uma árvore, mas quer mesmo um futuro com cheiro de dama da noite. E se não for assim, pode ser. Você pode sentir pena, mas se você quiser, ela puxa toda a sua dor pra dentro de si e desaparece com ela em segundos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Abismo

Talvez se amanhã eu acordasse e não me olhasse no espelho eu teria mais coragem. Porque eu não sou só olheiras e um pulso magro. Mas o espelho me denuncia, tira a minha roupa, e dá pra ver um abismo ali dentro. Talvez se e as certezas e tudo, tudo estivesse escrito em alguns papéis, talvez eu só precisasse colocar fogo, dar as costas e sair andando. Então eu tento colocar fogo dentro de mim através de uma fumaça cinza. Talvez se a cidade não parecesse um filme antigo, mudo e preto e branco e cinza, eu poderia respirar. O abismo é cinza como o concreto e o fim do abismo é cimento, frio e áspero. O cimento não pega fogo. Eu não achei onde queimar. Talvez se eu achasse esses papéis eu queimaria e daria as costas. Ontem eu dei as costas para o espelho, talvez amanhã eu vá até o cimento áspero, talvez eu encontre uma flor que conseguiu nascer por ali, mesmo que esteja seca. Ela conseguiu furar o cimento.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Pressa

Eu enlouqueci hoje assim que acordei. Acordar é natural, mas são situações naturais que enlouquecem quando elas saem do normal. E quando eu acordei eu vi tudo vermelho, achei que tinha sangue nos olhos, mas ele estava nas paredes. Eles querem me internar, e quem nunca enloqueceu? São poucos os que percebem, só isso. Olhei o quarto mais atentamente e achei engraçado. Tão trivial, tão visto todos os dias. Hoje, com uma bela mancha de sangue na parede salmão. Vejo meninas da minha idade que não enlouqueceram ainda. Me sinto com o triplo da minha idade apesar dos ursinhos no quarto , e não sei o porquê.
Levei a mão aos olhos e senti o enrugado. Na parede, o meu único retrato de quando era jovem. Preto e branco.
"Pra que tanta pressa com oitenta e poucos anos?"
Me internaram no caixão.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Estranho Ímpar

Que tipo de pergunta era aquela?
Existiam algumas peculiaridades, realmente, como o desejo insano e um pouco mórbido de um dia, quem sabe, conversar com Carlos Drummond de Andrade sobre como são tristes as coisas quando consideradas sem ênfase. Ou então chorar durante 2 horas seguidas ao descobrir que o amor não existe quando leu George Orwell. Olhar para o relógio quando são 11:11 e ler as placas dos carros, isso acontece com bastante gente, então achou que não deveria ser considerado. Talvez a resposta seja o resultado de todos os remédios que já foram ingeridos, junto com o café que tinha tomado rapidamente naquela manhã, todos os rostos já vistos, os lugares que nem existem mais e a lágrima chatinha que ficou presa no canto do olho. Então isso tudo poderia ser colocado em um copo, e a resposta seria aquele drink que jamais se arriscaria a beber.
Não chegou a conclusão alguma. E o que te faz ser você?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Porque eu gosto de gatos

Eu fico imaginando o quanto um gato odeia ser fofinho. Você sabe o que se passa naquele orgãozinho petrificado do bichano, conhecido como coração? Pra não dizer nada: Um mau-humor peculiar, o egocentrismo que mal cabe no corpinho peludo e o mais sarcástico descaso.
Para ele, você é algo grande e bobo, apenas isso. Ele não gosta de você, nem da sua família, nem das suas visitas. Ele acha que tem a aparência de um leão, empina o focinho e desfila. E então, domingo à tarde, tudo que ele quer é deitar com a barriga pra cima depois de comer o banquete que você
preparou com tanto carinho (depois de pensar "rango safado, comeria melhor na rua", obviamente), você chega e vê aquele felino muito do bonitinho e faz a Felícia: corre, aperta e enche o infeliz de bitoca babada. Juro que consigo ouvir, "Me deixa, caralho!". Ingratos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sapatos e Martini

O barulho foi tão intenso que pôde sentir na pele. Foi ensurdecedor. Minutos antes estava sentada, no buteco de sempre. Pediu o Martini de sempre. Mas não estava no lugar onde costuma sentar. Lá, do outro canto, a desajeitada com o Martini observava aquela que ocupava o seu lugar. Os sapatos eram bonitos, mas a saia estava um pouco curta demais. Desviou o olhar. O cigarro parecia flutuar e acabou mais rápido do que costume. Essas porcarias não servem pra nada, mesmo. Sempre estão por perto, mas morrem rápido. Anseia por acendê-los e anseia por apagá-los. Acendeu outro (esses isqueiros não servem pra nada!), e quando voltou a olhar para aqueles sapatos brilhantes, viu que estavam caminhando. Para fora, aquela louca estava indo para fora. Ótimo, afinal é o meu lugar, de onde eu não deveria ter saído. E então ela se levantou e sentou no seu lugar. Sua tão confortável cadeira do buteco em frente à Avenida. Ah, a Avenida. Cruel, sem aviso, assassina... Assassina.
O barulho foi ensurdecedor, ela sentiu tremer a pele. Colocou o Martini em cima do balcão e foi para fora.
Os sapatos continuavam refletindo a luz, desta vez distantes. Uns quinze metros? Couro preto envernizado é tão bonito.
Eles não se moviam mais.

Foi embora e deixou o Martini no balcão, lembrou depois, na cama. Que desperdício.