O barulho foi tão intenso que pôde sentir na pele. Foi ensurdecedor. Minutos antes estava sentada, no buteco de sempre. Pediu o Martini de sempre. Mas não estava no lugar onde costuma sentar. Lá, do outro canto, a desajeitada com o Martini observava aquela que ocupava o seu lugar. Os sapatos eram bonitos, mas a saia estava um pouco curta demais. Desviou o olhar. O cigarro parecia flutuar e acabou mais rápido do que costume. Essas porcarias não servem pra nada, mesmo. Sempre estão por perto, mas morrem rápido. Anseia por acendê-los e anseia por apagá-los. Acendeu outro (esses isqueiros não servem pra nada!), e quando voltou a olhar para aqueles sapatos brilhantes, viu que estavam caminhando. Para fora, aquela louca estava indo para fora. Ótimo, afinal é o meu lugar, de onde eu não deveria ter saído. E então ela se levantou e sentou no seu lugar. Sua tão confortável cadeira do buteco em frente à Avenida. Ah, a Avenida. Cruel, sem aviso, assassina... Assassina.
O barulho foi ensurdecedor, ela sentiu tremer a pele. Colocou o Martini em cima do balcão e foi para fora.
Os sapatos continuavam refletindo a luz, desta vez distantes. Uns quinze metros? Couro preto envernizado é tão bonito.
Eles não se moviam mais.
Foi embora e deixou o Martini no balcão, lembrou depois, na cama. Que desperdício.